AS PERAS
As pêras, no prato,apodrecem
O relógio sobre elas
mede a sua morte?
Paremos a pêndula. Deteríamos,
assim a morte das frutas?
Oh, as pêras cansaram-se
de suas formas e de sua doçura! As pêras
concluídas, gastam-se no fulgor de estarem
prontas
para nada
o relógio
não mede. Trabalha
no vazio: sua voz desliza
fora dos corpos.
Tudo é o cansaço
de si. As pêras se consomem
no seu doirado
sossego. As flores, no canteiro
diário, ardem
ardem em vermelhos e azuis. Tudo
desliza e está só.
O dia
comum, dia de todos, é a distância entre as coisas.
Mas, o dia do gato, o felino
e sem palavras
dia do gato que passa entre os móveis
é passar. Não entre os móveis. Passar
como eu
passo: entre nada
(As Pêras)
FERREIRA GULLAR


1 Comentarios:
Simplesmente maravilhoso poema. Gullar é realmente um poeta extraordinário, que sabe falar filosoficamente sobre nossa existência de forma tão simples e concisa, como a própria existência.
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